ENTREVISTA MOSTRA CULTURAL – ALICE PROENÇA

Alice Proença, assessora pedagógica da Primeira para Educação Infantil concedeu uma bela entrevista para a equipe de comunicação da Escola. A professora falou sobre aspectos curiosos da Mostra, que se ligam com a vida de estudante, com a participação da família na vida da criança, com o “belo”, e ainda sobre a pedagogia Reggiana. Alice afirma: “A grande questão quando as crianças veem a Mostra, esse mergulho em uma estética das produções feitas ao longo do ano, é a apropriação de todas as etapas do pensamento científico.”

Nós tivemos a oportunidade de acompanhar processos pedagógicos ao longo do ano. Hoje, na Mostra Cultural encontramos esses mesmos projetos concretizados. De que forma a Mostra se liga aos processos pedagógicos da Escola?

Você muito bem lembrou que a grande questão relacionada a essa forma pedagógica, a esse olhar, a essa filosofia Reggiana é a questão processual. Nós precisamos valorizar todas as etapas desse processo, porque cada uma delas tem a sua beleza. A Mostra encanta por ser um produto; acaba se construindo um produto de todo esse percurso formativo que foi feito ao longo do ano. Agora que nós estamos prestes a finalizar o ano vem esse produto que, de uma forma ou de outra concretiza e mostra para as crianças: “olha tudo o que vocês puderam fazer; olha como vocês são potentes; olha como vocês conseguiram traduzir no concreto todas essas pesquisas que vocês fizeram nos meses anteriores; olha como as perguntas que vocês fizeram, das visitas às pesquisas, tudo isso se concretizou nesse trabalho”. A Mostra também tem um valor muito interessante quando a Escola cria uma cultura do coletivo. Essa cultura evidencia que não é o processo do meu grupo só, enquanto professor, pais e enquanto criança. Quando caminhamos pela Mostra vemos que isso tudo é a Escola Primeira. Então é uma Mostra Cultural de uma escola, que diz dessa maneira a que veio, qual foi o trabalho realizado ao longo do ano quando as crianças mergulharam em uma série de investigações, e hoje elas se tornam visíveis de uma forma concreta e de uma forma que esteticamente é convidativa. Por que a Mostra ela tem uma estética que convida todo mundo a dizer: “vamos continuar nossos estudos, nossas pesquisas, as nossas buscas.”

Inseridas nesse ecossistema, de que maneira as crianças irão se beneficiar tendo em consideração uma trajetória de estudos até a universidade?

A grande questão quando as crianças veem a Mostra, esse mergulho em uma estética das produções feitas ao longo do ano, é a apropriação de todas as etapas do pensamento científico. Ou seja, eles fizeram perguntas, eles levantaram hipóteses, eles fizeram pesquisas, eles fizeram investigações que deram certo, outras nem tanto. Quantas vezes as crianças fazem por exemplo, um trabalho com argila e esse trabalho corta, ele quebra, ele racha. Então a criança vai se apropriando de elementos para a sua carreira de estudante, o conhecimento não é dado de repente. Para a gente chegar no conhecimento, há um movimento enorme de pesquisa, de imersão, de busca, de tentativas, de acertos, de erros. Malaguzzi [Loris Malaguzzi (1920-1994), educador italiano que delineou a abordagem pedagógica centrada na criança e em todas a suas linguagens, que ficou conhecida como pedagogia Reggiana] trazia com tanta propriedade as teorias provisórias: as crianças constroem essas teorias à medida que elas vão mergulhando nesse processo como um todo. Então isso eu acho que é um ganho enorme para a criança, “acreditem naquilo que vocês estão querendo saber e vamos mergulhar. Como a gente constrói algo para se proteger da chuva? Como agente constrói algo para poder pegar o coco que está lá no alto do coqueiro?” São questionamentos que as crianças fazem e que principalmente vão dando a elas essa possibilidade de dizer: “Há quem escute; há quem vá tentar averiguar a minha hipótese”. Há um conhecimento que é feito no coletivo e há um produto de tudo isso. Então vale a pena mergulhar numa pesquisa que chega em algo como hoje estamos vendo na Mostra.

Por que é importante a família ter contato com a produção das crianças na Mostra?

A criança, em especial as da Educação Infantil, têm uma família que está com ela o tempo inteiro. A família só pode participar daquilo que ela vê. A família só pode participar e contribuir com a criança, levar a criança para outras pesquisas, para poder buscar – por exemplo, uma fonte numa livraria ou em um museu. Ela está viajando com a criança e vai fazendo um link com uma coisa que ela tenha visto aqui. A família só pode participar daquilo que foi visível. A visibilidade de um processo como esse, ela é inclusiva, porque essa visibilidade convida todos à participação.

Mesmo que a família não tenha podido prestigiar à Mostra contribuíram de alguma forma em etapas do processo.

Sim, estão contribuindo, mandando materiais, levando às crianças para fazerem atividades, conversando com as crianças no dia a dia. A criança só vai poder ter alguma coisa em comum para poder conversar com a sua família – daquilo que viveu aqui na escola, se a família estiver a par. Um exemplo são os folders que existem na parede da escola; a parede da escola é considerada uma segunda pele, ela é uma pele no sentido dessa informação que ela vai dando para a família e fazendo esse convite à participação coletiva.

O que faz da Mostra Cultural da Primeira uma mostra tão singular?

Primeiro: a estética é absolutamente considerada. Dentro da proposta da escola e da abordagem italiana da Educação Infantil a estética é um valor. O belo, como dizia Malaguzzi não é o bonito, o belo é aquilo que convida a investigação. Eu me encanto com aquilo que é belo. Esse belo é também uma doação e uma participação compartilhada entre adulto e crianças, atelieristas, todo o pessoal de coordenação e suporte da escola. Todo mundo vai fazer com que esses sonhos das crianças possam se transformar em realidade. Quando você me pergunta o que essa mostra tem de tão especial, as crianças têm a possibilidade de se reconhecer em tudo isso que está sendo feito aqui. Então as crianças vão com o dedinho e mostram para os pais. Eles sabem, aquilo não é uma coisa que o adulto faça para os outros verem, ela é de verdade, no sentido de que com a doação do adulto, a generosidade, pelo papel que ele ocupa dentro do grupo, como responsável por aquele grupo, ele traz aquilo tudo para uma organização. É lógico que são os professores que fizeram essa montagem, mas é uma montagem que as crianças sabem contar história e quando as crianças se sentem pertencentes a esse processo ele fica absolutamente belo e convidativo e isso faz com que seja especial.

By | 2017-12-11T23:25:45+00:00 dezembro 11th, 2017|Sem categoria|0 Comments

Leave A Comment